Quando Francisco Espinheira abriu a sua casa em 1840, nunca lhe terá passado pela cabeça que a Ginjinha do Rossio seria um dos estabelecimentos mais populares de Lisboa, um século depois. Tão popular, que após um encerramento forçado de dois meses, voltou a ser ponto de paragem obrigatória de clientes habituais e de outros que nunca provaram o licor do copinho de vidro. Com ou sem elas, as ginjinhas saem a grande velocidade, tal é o ritmo da procura. Em meia hora de conversa, e com a contabilidade feita por alto, foram vendidas mais de 20 ginjinhas.

O balcão de mármore nunca está às moscas. “Às vezes até se forma fila”, conta Rocha, 40 anos, mais de 20 como cliente da Ginjinha Espinheira, produzida nas terras da Arruda dos Vinhos. “Há mais casas a vender ginjinha, mas eu só gosto desta. É mais suave”, diz.

Depois de almoço, a clientela aumenta exponencialmente. “Sabe bem beber uma ginjinha a seguir à refeição. É um bom digestivo.” Democrática , interclassista e transversal, a ginjinha é procurada por homens e mulheres. Novos e velhos. Em troca de uma moeda de um euro recebem-se uns bons minutos de degustação que adoçam o palato e aquecem a alma. O licor vermelho escuro vertido pelos funcionários da Ginjinha do Rossio, no copinho de 50 cl escorrega bem pela garganta. Maria Carla, sempre que vem à Baixa, pára na Ginjinha. Desta vez, o facto de o espaço ter estado fechado para remodelação após uma inspecção da ASAE, ainda lhe aguçou mais a curiosidade. “Afinal, pouco mudou. Olha, está aqui um lavatório para passar as mãos por água. Sempre ficam pegajosas. E a ginja, essa, continua boa. É uma bebida popular mas tem o seu quê de chique”, sublinha. Noélia veio de Barcelona. Provou a ginja em Agosto do ano passado e agora que cá voltou leva uma garrafa de um litro de Espinheira. “Temos licores, mas não como este. Que fruto é aquele no fundo da garrafa? Uma cereja? É para comer?”, pergunta. Sim. Há quem goste de acabar um copo de ginjinha, com ela. Outros dizem que não. “Na minha opinião, o fruto tem uma elevada concentração de álcool”, afirma Lídia Ferreira.

Enquanto o sr. Fernandes, de farpela nova e crachá a identificar, deixa escapar com perícia ímpar, uma ou duas ginjas pelo gargalo, a pedido do cliente, o colega volta a atestar a garrafa numa das torneiras do depósito com capacidade para armazenar 800 litros do néctar.

De regresso ao balcão, a pergunta já está na ponta da língua. “É com ou sem elas?”|

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