Escavações arqueológicas no Forte do Cego, em Arruda dos Vinhos, levam os especialistas a afirmar pela primeira vez que os métodos defensivos adoptados pelo exército luso-britânico para impedir as invasões francesas persistiram até à segunda guerra mundial.

“Foi a primeira vez que se utilizou um sistema defensivo em linha completamente novo para evitar que o exército passasse para o outro lado e possibilitar a defesa de uma determinada região. As técnicas usadas estiveram muito em voga na primeira e segunda guerra mundial”, explicou à Lusa o arqueólogo Guilherme Cardoso, que coordena a campanha.

As Linhas Defensivas de Torres, que se estendem desde Torres Vedras até ao rio Tejo, possuem mais de uma centena de fortes, que foram indispensáveis para pôr termo às invasões francesas em Portugal, no século XIX.

“As Linhas de Torres Vedras pararam completamente as tropas francesas porque eram uma linha bastante forte face às técnicas de engenharia militar utilizadas”, indicou, precisando que a muralha de fortificações tornava quase “impensável as tropas passarem e sujeitarem-se ao fogo do inimigo”.

A campanha arqueológica, que está a decorrer desde meados de Julho, pôs pela primeira vez a descoberto materiais e técnicas adoptadas na linha defensiva para impedir o avanço das tropas francesas, o que permite “ter uma ideia mais rigorosa do que se conhecia do passado”.

Sabe-se, por exemplo, que duas canhoneiras agora encontradas (base de apoio dos canhões) tinham “um carro com rodas baixas para evitar que, caso o forte fosse tomado pelas tropas francesas, pudessem sair do lugar em que estavam” com todo o armamento.

Foi também posto a descoberto o local onde se guardavam as armas e as munições (paiol), que permite aos arqueólogos concluir que as construções eram feitas com “rigor” e recorrendo a operários especializados.

O paiol foi construído com “lajes de pedra trabalhada”, sobre as quais assentava um “piso em madeira para evitar faíscas e impedir que a pólvora que lá estava guardada explodisse”.

As escavações permitiram também concluir que os métodos de defesa e construção dos fortes “nem sempre eram os mesmos”, havendo diferenças na mesma linha defensiva.

“Não há fortes iguais. Todos foram construídos segundo as especificidades do terreno onde foram implantados”, assinalou Guilherme Cardoso.

Tal como em mais de cem fortificações existentes, o Forte do Cego tinha um monte de pedra no seu interior “para evitar a explosão de bombas” que o danificassem, mas “não tem muretes de pedra”, ao contrário de outros, porque não haveria no local pedra e homens para trabalhá-la.

Os arqueólogos descobriram ainda que, debaixo do Forte do Cego, existe um povoado do período do neolítico-calcolítico, com pelo menos cinco mil anos e onde existem “vestígios de cerâmica”, além de um outro da Idade do Ferro, a trinta metros de profundidade.

Em Setembro, a equipa de trabalho vai iniciar escavações no Forte da Carvalha, ainda no concelho de Arruda dos Vinhos, no âmbito de um projecto que envolve também os municípios de Loures, Mafra, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras e Vila Franca de Xira.

Fonte: http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/389846

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