Esforço e paixão, são dois adjectivos para iniciar a descrição de dois dias dedicados à Festa Brava e ao toureio a pé em Portugal.

Foi com muita dedicação que a Fundação João Alberto Faria, a Tertúlia “O Piriquita” em conjunto com a Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos, projectaram um evento histórico que à partida, esperava maior participação do público e da afición portuguesa.

No dia 13 de Junho, dia de Santo António, o dia amanheceu incerto mas com um sol forte e quente! Seria o prenúncio de um fim-de-semana taurino não tanto como se esperava a nível de público, mas o que marcou presença evidenciou um saber e afición pelo toureio apeado; O silêncio durante as lides e o reconhecimento do esforço e do empenho de cada toureiro reflectiu isso mesmo. Quem assistiu, viveu únicos e muitos bons momentos!

Assim, no Sábado, pelas 11h30, realizou-se a 1ª Final Galardão de Prata.
Com pouca gente nas bancadas, os novilheiros das diferentes escolas, Miguel Cuartero, Gerardo Adame, Paco Velásquez, Cuqui, Juan Solis e Jorge Salvatierra, mostraram com uma aula prática de toureio, as suas capacidades e técnica.
Os seis novilhos de Ascenção Vaz, de uma forma geral corresponderam. O terceiro brusco pelo pitón direito, o quarto, curto nas investidas e a procurar a figura do toureiro e, o quinto distraído, com crença nas tábuas, junto à porta do chiqueiro, obrigou o novilheiro a desenvolver faena nesses terrenos.

Na manhã do dia 14, Domingo, na 2ª Final do Galardão de Prata, Diego Fernadéz, Júlio Antunes, Adolfo Ramos, Mateo Julian, Rafael Cerro e Luís Gerpe, tourearam quatro novilhos de S.Torcato e dois de Pinto Barreiros.
Destaque para Rafael Cerro que conquistou a final, no conjunto dos doze novilheiros, evidenciando boas maneiras quer no capote, quer na muleta, deixando boas notas, conquistando o lugar para tourear entre as figuras do toureio mundial.
De um modo geral, todos os novilheiros em concurso demonstraram diante das reses, que querem ser toureiros, com raça, toreria e valentia, fazendo-nos acreditar que vale a pena o esforço em apostar no intercâmbio entre escolas e bolsins.

No mesmo dia, pelas 17h30 a grande novilhada Final Galardão de Ouro, ficou registada nas páginas da história da tauromaquia, com o inédito mano a mano entre as ganadarias Palha e Murteira Grave.
O novilheiro Manuel Dias Gomes foi o triunfador da tarde, conquistando com justo mérito o galardão em disputa. Elegância, temple, segurança e sítio, caracterizaram as suas faenas equilibradas. De França, o novilheiro Patrick Oliver, revelou boas maneiras nos tércios de capote e muleta. De Valência, José Arévalo, revelou vontade, raça toureira e crer, transmitindo alegria com as bandarilhas, tércio apreciado entre a afición portuguesa.
O júri que avaliou as lides de cada novilheiro foi formado por João Queiroz, Coronel José Henriques e pelos ganadeiros, Victorino Martin, João Folque e Joaquim Grave.

Após a novilhada, o novilheiro Nuno Casquinha, que assumiu o lugar de Procuna, rematou a tarde com uma aula magistral, lidando um toiro da emblemática ganadaria Victorino Martin, que não mostrou ser cooperante com o toureiro, mas com esforçou, o novilheiro acabou em agradável plano, tendo o público reconhecido suas maneiras e o modo de estar perante o oponente.

À noite, no Auditório Municipal da Vila de Arruda, foi apresentada a I Feria Mundial del Toro, realizada pela primeira vez no outro lado do atlântico, por terras do México, mais propriamente em Aguascalientes; O importante hermanamiento entre a Fundación El Juli e Fundação João Alberto Faria, acalentado o desejo dos bons aficionados pelo toureio a pé, de boas expectativas e expansão dos nossos toureiros em terras de Espanha e vice-versa; Homenagem à ganadaria Victorino Martin, orientado pelo Coronel José Henriques que com a sua dialéctica preciosa e apaixonante, cativou a lotação esgotada do auditório, contagiando todos com a sua expressão oral, registo de memória e cultura taurina.
A terminar a noite, uma explicação em audiovisual, carregada de sentimento e paixão, pelos veterinários António Ruiz López e António Moreno Boiso, entre as diferenças entre um toiro bravo e um boi manso, desde o nascimento, vivência e morte. Uma boa arma de arremesso e argumentação, para os que são contra os toiros, para os que são contra-natura.

No Domingo, o tão esperado espectáculo, que culminou os dias taurinos vividos em Arruda dos Vinhos.
Com meia praça, a afición pelo toureio apeado, teve a oportunidade de sentir o vibrante e entusiasmante ambiente taurino, aplaudindo de pé, como que em forma de agradecimento, pela presença em Portugal de grandes figuras do toureio e pelos bons momentos desenhados pelos maestros Ortega Cano, Juan António Ruiz Espartaco, Victor Mendes e Padilla que ternamente foram ovacionados pelo público e também os bons exemplares Palha e Grave e Falé Filipe, contribuíram para o êxito estrondoso do III Festival Taurino da Tertúlia “O piriquita”.
O maestro Ortega Cano, com o seu estilo peculiar, arrancou em uníssono, fortes olés pela sua faena a um novilho Grave, carregada de interesse e dedicação em deixar bom ambiente.
Ao Maestro Espartaco coube-lhe em sorte o pior novilho Grave, que não se deixou tourear. No entanto, foram reconhecidos o seu esforço e entrega, sentindo o carinho do público.
O Maestro Victor Mendes toureou a gosto o novilho de Vitctorino Martin, com o seu estilo próprio de luta, técnica e muito ofício. No tércio de bandarilhas, convidou Padilla e repartiram uma forte ovação.
Juan José Padilla, com a sua personalidade tão peculiar, teve alguma dificuldade perante um novilho Grave complicado. Exuberante e com toreria extrovertida recreou momentos de entrega. Nas bandarilhas, convidou Victor Mendes, onde ambos montaram um lio, com estridente ovação do público.
Em substituição de António Ferrera, Pérez Mota toureou um novilho de Falé Filipe, com plástica, elegância e profundidade, deixando sabor para uma próxima actuação em Portugal.
Paco Velásquez recebeu um novilho de Falé Filipe, com capote expressivo, muleta desenvolta e evidenciou forte evolução e intuição nas distâncias. Calmo e seguro, conquistou o público com a sua entrega, sendo muito aplaudido, merecendo volta a arena na companhia do ganadeiro.
Rafael Cerro toureou um exemplar de  Palha que não lhe facilitou a vida. Com presença no capote, mas na muleta mais irregular, típico da imaturidade, mas não menos desprestigiante, pois terá o seu tempo de provar a sua evolução e técnica.

E assim se viveram momentos históricos, de grande relevo e importância taurina!
Bafejados pela sorte, todos aqueles que não deixaram de estar presentes, pois puderam sentir o calor da afición, o esforço e a dedicação daqueles que com persistência e verdadeira paixão, não aceitam em deixar esmorecer o toureio a pé em Portugal!

Fonte: http://www.solesombra.com/cr%C3%B3nicas/arruda-dos-vinhos-13-14-junho/