Integrada na recentemente denominada Região de Vinhos de Lisboa, Arruda não tem a fama das regiões vinícolas do Douro ou do Alentejo, mas há ainda quem lute pelo prestígio e pela qualidade dos vinhos da terra. Arruda dos Vinhos fica apenas a 20 minutos de carro de Lisboa, tão perto que no alto das suas serras consegue-se mesmo vislumbrar os contornos da Ponte 25 de Abril. São as longas extensões de vinhas, escorreitas pinceladas pela paisagem do vale em que habitam, que lhe dão o nome.

Na espécie de “caldeirão” onde se situa Arruda dos Vinhos, dada a configuração geomorfológica, os solos conseguem reter bem a água, são argilo-calcários típicos e as encostas estão expostas ao sol que ilumina as vinhas durante todo o dia. Esta particularidade confere aos terrenos de Arruda a protecção dos ventos marítimos necessária para abrigar as videiras. Resultado destas características especiais: maturação das uvas mais precoce, única na região. Num vale quente e abrigado, com maiores amplitudes térmicas, crescem uvas mais sãs e de melhor qualidade.

No entanto, longe vão os tempos em que vinham ranchos e ranchos de pessoas de vários pontos do país para ajudar a pouca mão-de-obra da terra na época das vindimas. Há cerca de 30 anos, Arruda dos Vinhos ainda recebia muitos trabalhadores rurais que chegavam em Setembro, para a colheita da uva, e ficavam para a apanha da azeitona, até Novembro.

Nessa época, os produtores eram muitos e os hectares cultivados também. Hoje, há apenas quatro empresas privadas de produção vitivinícola, pois a maior parte dos agricultores com pequenas vinhas está associada às duas cooperativas agrícolas da terra.

O acompanhar dos tempos

“A Adega Cooperativa e o associativismo trouxeram equipamento novo e modernizaram a produção”, afirma João Corrêa, cujo avô foi o sócio nº2 da Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos. João Corrêa, 49 anos, presidente da Confraria dos Enófilos da Estremadura, agrónomo e enólogo de profissão, herdou com os três irmãos mais de 200 hectares de vinha. Actualmente, mantém cultivados na Quinta da Moita e na Quinta da Alagoa cerca de 50 hectares, com a ajuda de máquinas alugadas e de apenas mais quatro funcionários durante todo o ano.

João Corrêa destaca a importância das cooperativas na mecanização do processo de produção e na ajuda aos agricultores, mas também aponta onde falharam. “Durante muito tempo os produtores entregavam a uva na adega [cooperativa] e o processo acabava ali, a parte comercial foi algo que não foi explorado, não houve investimento”, lamenta. “Há muito tempo que este não é um negócio só da vinha e da adega (…) com as ajudas comunitárias toda a gente se esqueceu da parte comercial e investiu na produção. Falharam porque esqueceram a estratégia e o investimento na parte comercial”.

Quebrar o estigma da região

“Em tempos o vinho vendia-se quase todo, mesmo a granel, mesmo com pouca qualidade, mas com a entrada de Portugal na União Europeia, quando se pediu quantidade à nossa região, começou a haver excedente. A palavra de ordem seguinte foi ‘qualidade’”, conta João Corrêa. Contudo, o estigma da produção em quantidade e de pouca qualidade já estava associado à terra e aos seus vinhos. Para além das dificuldades em tornar o negócio rentável devido ao aumento dos custos de produção e da crise internacional, a batalha trava-se agora com persistência para tentar contrariar esta ideia.

Um dos passos foi mudar o nome da região vitivinícola, outrora região da Estremadura. De acordo com João Corrêa, a designação era facilmente associável à Estremadura espanhola, onde os vinhos não são famosos pela qualidade. Assim, o ano passado, passou a chamar-se “Região de Vinhos de Lisboa”, “tendo em consideração factores positivos, nomeadamente para os mercados externos, pelo facto de possuir mais notoriedade, mais fácil leitura e melhor referência quanto à sua localização”, justificaram os estudos realizados que deram origem à mudança.

Aposta na modernização

Antes de chegarem as máquinas, as vindimas “demoravam mais tempo, o trabalho era mais manual, sofria-se mais e era mais difícil”, recorda Joaquim Santos, 35 anos, empregado da Casa Agrícola Ribeiro Corrêa há cinco anos, mas filho da terra e amante das vinhas desde criança. Hoje os jovens não querem a vida da terra, apesar das máquinas ajudarem em praticamente todas as tarefas, “continua a ser duro”, lamenta Joaquim, mas sem deixar apagar aquele brilho no olhar, típico de quem faz o que gosta.

De pele queimada pelas inúmeras vezes que percorre os trilhos que separam os talhões, Joaquim lembra-se bem do convívio e da camaradagem de outrora entre os trabalhadores. “Os amigos ajudavam-se, fazia-se a vindima e a seguir havia sardinhada, o convívio era outro, era tudo mais familiar. Agora há um engenheiro, há o pessoal (pouco) que trabalha e há uma relação mais distante”.

O engenheiro de que fala estudou no Instituto Superior de Agronomia (ISA) em Lisboa e esteve dois anos em Montpellier. “Nasci quase no meio de cepas”, brinca João Corrêa, para quem “os genes” foram mais fortes na hora de decidir o futuro. Aos 28 anos ainda considerou a paixão pelos aviões. “Pensei: «ou vou para a terra ou vou para o ar»”, mas “as raízes prenderam-me à terra”. Quando regressou de França apostou na reestruturação da empresa para criar uma marca própria, independente, e que vingasse pela qualidade.

Na família há quatro gerações, a Casa Agrícola Ribeiro Corrêa, foi pioneira em Arruda na introdução na década de 90 de “técnicas de reconversão das vinhas, com enxertos prontos em talhões monovarietais utilizando tecnologias de drenagem, plantação e condução inovadoras”. Daí até à mecanização foi um pequeno passo.

Vantagens da mecanização

As máquinas reduzem para metade os custos das vindimas, por um lado porque “cada vez há menos gente para trabalhar as vinhas e as pessoas consideram este trabalho desprestigiante”, por outro lado porque na Casa Agrícola Ribeiro Corrêa a maquinaria usada na colheita é alugada. “Seria uma estupidez comprar máquinas tão caras, com a nossa dimensão, e para pouco mais de um mês de trabalho por ano”, considera João Corrêa.

Contudo, para além de “caríssimas”, explica, as máquinas de vindimar “requerem imenso da sensibilidade do trabalhador”, não só para saber como se manobram como também para ajustar cada opção mecânica à especificidade da uva em questão.

À excepção da vindima de algumas castas, por exemplo no caso das brancas, a empresa chega a contratar cerca de 30 trabalhadores para ajudar na colheita. Mas as máquinas fazem a grande maior parte do trabalho.

No caso das castas de tintos, João Corrêa elogia as vantagens da utilização de maquinaria. “Num dia de Verão, como são normalmente os dias de vindima em Agosto/Setembro, convém que a uva chegue fresca à adega”, nunca seria possível ter um rancho de pessoas a vindimar durante a noite, e com as máquinas existe a “versatilidade das horas” e a “rapidez com que se vindima um talhão”.

Aspectos fundamentais na hora de aferir a qualidade da colheita pois, muitas vezes, quando se começa a vindimar manualmente uma casta, a morosidade da apanha faz com que a uva colhida no primeiro talhão tenha um grau de maturação inferior à colhida no último. Pormenores que fazem a diferença na qualidade do produto final.

O “fim dos pés” nos lagares

Da vinha para a adega, a reestruturação continuou. Da traça rústica e tradicional das antigas instalações, restam apenas os lagares de pedra. Onde antes reinavam a alegria e a festa da tarefa de pisar o mosto, agora já não se ouve o som da uva a ser esmagada em contacto com os pés. No mesmo local, em surdina, repousam agora as barricas de madeira já cheias de vinho pronto a amadurecer.

Em substituição da mão-de-obra, a Casa Agrícola Ribeiro Corrêa, investiu em cubas de vinho que se vão enchendo à medida que as uvas chegam da vinha. Primeiro passam por uma máquina (esmagador-desengaçador), e o mosto é conduzido directamente para a cuba de fermentação. Uma vez aí, um tubo no interior leva, compassadamente, o líquido que se acumula no fundo novamente para a superfície, de modo a que a parte sólida se funda com a líquida e ocorra a pretendida fermentação alcoólica.

Beber vinho sempre fez parte da dieta mediterrânea dos nossos povos, mas chegou a ser associada pejorativamente aos taberneiros e a uma forma de consumo em excesso. Hoje, “bebe-se mais moderadamente, beber vinho é um acto de civilização, um acto gourmet”, considera o enólogo. Como fica implícito, o consumo médio em quantidade por português tem descido nos últimos anos.

“O vinho não é um bem de primeira necessidade, e com crises destas, duras, é dos produtos que mais se ressente”, afirma João Corrêa.

“Os vinhos mais caros bebem-se cada vez menos, há uma queda nas vendas da gama alta e mesmo dos vinhos com notoriedade”, lamenta acrescentando que “agora é ainda mais difícil ir para o mercado com uma marca nova, ainda que de elevada qualidade”.

Ainda assim, João Corrêa observa que o segmento de vinhos médio é onde se registam as maiores perdas devido à “enorme” diferença entre o preço de venda do produtor e o preço de venda praticado nos restaurantes. “É uma guerra perdida”, confessa.

Daí que a Casa Agrícola Ribeiro Corrêa opte por se manter concentrada em produzir apenas com três fins: promover as marcas de topo junto de garrafeiras e restaurantes; apostar no agora em voga “bag-in-box” (antigo garrafão de 5 litros adaptado a uma embalagem moderna e prática com uma imagem apelativa) para os supermercados e hipermercados da região; vender uva a granel, em excedente, para outros vinicultores.

“Só bebo em serviço”

Profissionalismo e prazer. Confundem-se facilmente nas palavras de João Corrêa. As vindimas estão no fim e eis que chega a altura mais aguardada pelos produtores. Depois de um ano de labor minucioso dedicado à terra e ao cuidado da vinha, e depois de pouco mais de um mês intenso de trabalho na colheita, é hora de provar o “sumo” que vem compensar o esforço e a paciência.

CASA AGRÍCOLA RIBEIRO CORRÊA
Número de hectares cultivados: 50
Produção média anual (litros): 100.000
Número de funcionários: 4
Castas cultivadas

BRANCAS:

•Arinto
•Fernão Pires
•Vital
•Seara Nova
•Chardonnay
TINTAS:

•Toriga Nacional
•Aragonez
•Tinta Míuda
•Castelão
•Camarate
•Caberet Sauvignon
•Syrah
•Alicante Bouschet

Principais Vinhos comercializados
•Erva Pata
•R.C.Chardonnay
•”Bag-in-box” 5 litros (branco e tinto).

Fonte: http://sic.sapo.pt/online/noticias/vida/arruda+nao+e+dos+vinhos+os+vinhos+e+que+sao+dela.htm