“Em virtude da portaria de 7 do passado ficaram a cargo da Companhia das Obras-públicas não so as estradas de Lisboa a Torres-Vedras, e do Carregado a Alcobaça , por Alemquer , Óbidos e Caldas que ja lhe cumpria construir ou melhorar; mas tambem as estradas de Torres-Vedras a Alhandra , de Torres Vedras a Óbidos, e d’Alcobaça a Leiria.

Entre estas , o ramal d’estrada quo une Torres-Vedras ao Tejo, parece-me de tamanha importância que, louvando o pensamento de todas as outras, não posso deixar de me occupar mais especialmente d’esta.

O concelho de Torres-Vedras é talvez de todo o paiz o de maior producção de vinhos. A exportação d’este para Lisboa faz-se de duas maneiras, ou por terra directamente, ou por terra ao Tejo e depois por agua até Lisboa. A conducção directa é feita quasi toda por cavalgaduras, e sabe summamente cara, não importando em menos de 4$800 reis por pipa, e n’alguns annos muito mais; de maneira que ha annos, -quando acontece ser baixo o preço do vinho e subir a importância da conducção, que ésta é igual por pipa ao custo do vinho. Os carros raras vezes podem ser empregados n’estas carregações, e essas poucas so de verão. Tudp isto é assim pelas más estradas que até boje tem batido.

Ja temos porém um exemplo de quanto podem e valem as boas vias de communicação. Na estrada que a Companhia das Obra-públicas toma agora a sen cargo, d’Alhandra a Turres-Vedras , ja estão feitas duas léguas, d’Alhandra a Arruda , por conta da Repartição das Obras-públicas, e á macdam; que é um troço d’estrada que deve servir de modelo, e pôde ser que seja a melhor que exista no reino todo : ora esta pequena porção d’estrada contribuiu para que este anno apparecessem n’Arruda nem menos de nove compradores de vinho, quando d’antes, n’esta estação, costumava ser um, não passava de dois. D’Arruda a Torres-Vedras vão apenas tres léguas, que é quanto resta a fazer d’cstrada, de fácil execução e pouca despeza , para communicar em linha recta Torres-Vedras como o Tejo. Mas esta estrada não servirá so para as communicações entre estes dois pontos , facilitará também a dos concelhos d’Arruda , Sobral , Rebaldeira , e todos os convergentes desde a beira-mar até Lisboa, por intermédio do Tejo. Todos estes concelhos fornecem a capital não so de vinho, mas ainda de todo o género de fructa , cereaes, algum azeite, aves e caça, ovos etc.

Isto é pelo que respeita ao ramal d ‘estrada que cortará esta parte da Estremadura que fica entre o Tejo, defronte d’ Alhandra, e o Oceano; mas uma parte destas vantagens, e outras novas, se obterão também pela estrada directa de Lisboa a Leiria, passando por Torres-Vedras, Óbidos, Caldas e Alcobaça. Das tres estradas que ficarão assim communicando Lisboa com Coimbra , a que vai pela borda de Tejo, dita velha, a que vai pelo centro dita nova , e ésta mais sobre a beiramar, que se pôde chamar novíssima , parece-me que *erá d’ellas a mais util; porque ainda que a distancia se augmentará por este mudo, obra de légua e meia, comtudo ésta pequena desvantagem é de tal maneira compensada pela somma d’utilidades commerciaes, e mesmo de commodidades de transito, porque esta estrada atravessará grande número de povoações ferteis em quanto que as outras cortam áridos desertos. que ninguém, penso eu , cuidará siquer n’essa insignificante differença de distancia.”

Fonte: “Revista Universal Lisbonense, vol. 5” 1845-1846, página 289
http://books.google.pt/books?id=wLEDAAAAYAAJ&pg=PA289&dq=arruda&hl=pt-PT&sa=X&ei=q9WgUMTUDYOmhAeQzICgBw&ved=0CDMQ6AEwATge#v=onepage&q=arruda&f=false