A cerimónia no cemitério da Arruda dos Vinhos, onde uma pedra tumular assinalará o local, está marcada para as 11:00, culmina as iniciativas que assinalam os 120 anos do nascimento da autora de “Solidão”, e contará, entre outras personalidades, com a presença do presidente da câmara local, Carlos Lourenço.
“A pedra tumular terá gravada uma frase muito bonita da Irene [Lisboa], na qual se reflete sobre a vida e a morte”, disse à Lusa Inês Gouveia, afilhada da escritora.

“Os vários amigos da Irene [Lisboa] sempre acharam que se devia deixar um marco físico, e ainda recentemente, antes de morrer, a [artista plástica] Maria Keil falou nisso”, afirmou Inês Gouveia.

A partir das 15:00, no Auditório Municipal da Arruda, é exibido um documentário sobre a escritora, seguido da palestra da catedrática de literatura Paula Morão, “Voltar atrás para quê?”, título de uma novela de Irene Lisboa de 1956. A fechar esta sessão, a poetisa Catarina Gaspar lê alguns poemas de Irene Lisboa.
Inês Gouveia recordou à Lusa Irene Lisboa como uma mulher “muito reta e objetiva”, que “não se torcia nem por nada”.

“O que considerava certo era o que fazia. Não fazia jeitos a ninguém, para parecer bem no convívio social, era uma pessoa muito una e intrínseca”, rematou.
“A Irene — continuou — tinha um vivo e real interesse, fraterno, pelos outros no sentido de compreender e poder ajudar, não era curiosidade, e não romanceava as pessoas”.

Inês Gouveia é filha de Ilda Moreira, que trabalhou intensamente com Irene Lisboa, quer editando textos seus quer ilustrando, nomeadamente a história “A vidinha da Lita”.

Referindo-se ao quotidiano de Irene Lisboa, com quem viveu “vinte e tal anos”, até à morte da escritora, no apartamento na Estrela, em Lisboa, Inês Gouveia contou: “A Irene familiar era uma pessoa muito natural e espontânea, alegre até”, acrescentando: “Os seus dramas íntimos, as suas angústias, as suas coisas de menina, criança mal-amada, guardava-as para a escrita”.

Irene Lisboa estudou na Suíça, França e Bélgica, tendo-se especializado em Ciências da Educação.

Em Genebra, no Instituto Jean-Jacques Rosseau, trabalhou com Jean Piaget e Édouard Claparéde.

Em casa, a vertente educadora notava-se na “plena liberdade que dava, para que as pessoas se desenvolvessem”.

“O querer educar dela era facultar liberdade às pessoas para se desenvolverem; não era dar lições ou coagir de qualquer maneira hábitos ou obrigações. Era deixar as portas abertas para que as pessoas se desenvolvessem”, disse.

Inês Gouveia afirmou à Lusa que os princípios pedagógicos deixados por Irene Lisboa se mantêm “atuais e valiosos”, num mundo que, “em termos culturais, tem andado para trás”, parecendo-lhe “um sonho” recuperar esses princípios e pô-los em prática.

O programa de educação da pré-primária, que a I República (1910-1926) chegou a legislar, foi cancelado pelo ditador Oliveira Salazar, quando chegou ao poder, em 1928. “E hoje não há educação pré-primária”, disse Inês Gouveia. “O que as pessoas procuram é um sítio para deixarem as crianças quando vão para os empregos”.
Na freguesia de Arranho, na Arruda dos Vinhos, onde nasceu Irene do Céu Vieira Lisboa, a 25 de dezembro de 1892, existe um Museu, por iniciativa da afilhada, dedicado à escritora e pedagoga, com objetos pessoais, manuscritos, textos datilografados e primeiras edições.

“Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma”, “Um dia e outro dia”, “Começa uma vida” são obras da escritora.

Nos anos de 1930, Irene Lisboa chegou a trabalhar “Bases para um programa de escola infantil”, que não se coadunavam com a ditadura do Estado Novo.